De onde os sonhos vêm – série sobre o chamado espiritual da escrita

Histórias vêm de onde os sonhos vêm (1)

Pessoal, iniciei uma série de posts no Wattpad sobre o chamado espiritual de escrever. Eu sei, é bem “diferente”, mas tenho sentido que muitos de nós estão nessa no piloto automático, sem entender a natureza da substância que manuseamos. Enfim, nas próximas semanas publicarei ideias, reflexões e o resultado de estudos sobre o que nos move a escrever, e entre as mensagens, abro espaço para conversarmos sobre o que é a escrita para você. 

Sempre que chegar meu e-mail, prepare o chá, recoste na sua poltrona preferida e deixe que as palavras te levem. ❤

Escrevo há muito tempo. Desde que comecei a ler, soube que havia ali, nas palavras, alguma coisa que mexia comigo. Comecei a escrever em agendas, mas logo as páginas pequenas não deram conta dos devaneios, e passei a pedir cadernos para a minha mãe. Recortava revistas Capricho e usava as fotos (milhares) da Ana Paula Arósio para ilustrar meus enredos. Eram histórias sobre amores proibidos, amores rebeldes, amores que terminavam de maneira trágica. Tenho até hoje guardado quase vinte cadernos, um museu da década de 80 nas minhas estantes. Não consigo ler o que eles dizem (hoje acho as histórias muito, muito ruins!) mas os considero a semente de algo maravilhoso que me aconteceu. Hoje sei que escrevi para ajudar nascer a semente do que eu viria a ser.

Ao revisitar minhas agendas (daquelas com cadeados nas capas e “Meu diário” escrito em dourado) percebo que assim que peguei num lápis, o “download” foi imediato: eu me conectei ao papel como um computador se conecta a uma rede wi-fi. Os pensamentos desceram todos, tomando as páginas com todo tipo de drama imaginável.

E minhas histórias me amavam. Vinham em bando, inteiras. Disputaram com as matérias na escola, mas nunca perderam para elas. Se ia passar férias na casa das amigas, levava o caderno debaixo do braço. Minhas amigas ficavam esperando eu terminar o capítulo, liam e pediam mais. Com o Wattpad, até hoje pedem.

Na minha relação com a escrita não cabiam questionamentos. Dúvidas, angústia, medo, preocupação, ressalvas.  Era 100% amor correspondido e inabalável.

Foi mais ou menos na adolescência, por volta do primeiro ano do segundo grau que vivenciei  o primeiro baque dessa relação perfeita. Até esse momento meu relacionamento com o papel e a caneta era de vivência no Éden. Mas em algum momento precisamos tocar a realidade, e como disse Melanie Klein, quem come do fruto do conhecimento sempre é expulso de algum paraíso.

Minha expulsão começou quando levei uma história para uma professora de português avaliar. Ela me devolveu o caderno no dia seguinte com uma careta, uma torcida de boca daquelas que alguém faz quando não gostou do que provou.

Surgiu aí a primeira mancha na minha relação perfeita: não bastava escrever; o que escrevia precisava ser bom.

Gradualmente, de forma natural e sem sofrimento, fui deixando as histórias de lado. Comecei a dizer não quando o papel me chamava. Afastar a vontade, por que parecia perda de tempo. Eu me afastei daquilo que mais gostava de fazer.

Os anos passaram. As histórias sumiram, mas nunca de vez. De vez em quando achava velhos arquivos do trabalho, onde os rabiscos enchiam as laterais. Um nome fictício, um título que não me trazia mais nada. Um desenho rabiscado ao lado de um documento, um parágrafo onde um personagem dizia algo a outro. Algumas tentativas nas férias de desenvolver uma história, geralmente sobre um tema que me afligia no momento. Era a escrita ali sorrindo para mim, “me chamando para construir um boneco de neve lá fora”, disposta a me ajudar com as minhas angústias do jeito que só ela, a melhor terapia do mundo, sabia fazer.

Mas escrever para que, se o que escrevo é ruim? Escrever para quê, se não dá dinheiro, não paga contas, se não sou artista?

E eu continuava a trabalhar, a estudar para ser “alguém na vida,” e ignorar os enredos mirabolantes que me faziam perder alguns segundos no sinal mesmo depois de aberto, ou não ouvir ser chamada na fila, porque estava em outra dimensão.

Só percebi o tamanho desse amor pela escrita (e dela por mim) mais tarde, quando por um acaso tive uma janela de tempo entre a entrega da minha tese e o nascimento do meu segundo filho. Eu estava com um barrigão, enjoada, sem condições de trabalhar. Foi orgânico e imediato: “vou colocar uma história no papel,” decidi.

E coloquei. Seis capítulos estranhos, até mesmo proféticos. Alguma coisa em mim queria tanto nascer – e não era outro bebê! –  que nos próximos dois anos alternei meu tempo entre fraldas e escrita. As fraldas se foram, as crianças cresceram, e eu nunca mais larguei as palavras.

Só que não é mais fácil manter, como antigamente, o amor simples por elas.

Hoje, parece que temos que vencer. Escrever o best-seller, ter público, escrever direito (deus nos livre se a polícia da ortografia e da gramática nos pega cometendo algum delito), postar capítulos, fazer propaganda, evitar bloqueios criativos. Ah, e precisamos viver disso, também, para ter a genuína vida de artista. Se não for assim, instala-se um senso de fracasso geral. Um fracasso interiorizado, que vai agir justamente sobre quem veio para dar sustentação às nossas estruturas e suportarmos baques: nossa criatividade.

A inspiração chiou. Um dia me cutucou no ombro e me perguntou que mundo é esse em que eu a enfiei. Antes éramos só nós duas, apenas eu e ela, e um mundo inteiro (interno) de satisfação. Hoje o brilho dos holofotes que a Terra Prometida dos escritores lança sobre quem escreve a ofusca. Como sou uma das que adoraria viver de letras, estou na mira da luz. Mas esse tipo de luz não fascina minha mente intuitiva; fascina um outro tipo de instância, uma que mora na frente, no alto, que gosta de regras e técnicas, e prefere que eu me concentre no que o mundo quer. Em histórias que possam render alguma coisa.

Chegou então o momento em que minha escrita interior disse para mim: não posso te acompanhar por esse caminho.

“Ele não combina comigo. O que você quer não vem de mim. Eu falo a língua dos sonhos, não a das ideias.”

Então entendi porque me sentia tão distante da minha inspiração. Quantas vezes deixei-a de lado para seguir uma demanda de mercado? Para provar minhas capacidades, ou como uma aposta comigo mesma de que poderia chegar lá, na Terra do Holofote Que Cega?

Desconectada de mim, do meu centro emocional – daquele “lugar” não baseado em palavras – eu me senti sozinha, sem a companhia da minha parceira. Bloqueio, diagnostiquei.

“O inconsciente não fala a nossa língua; ele fala a língua dos sonhos.”

– Robert Olen Butler, ganhador do prêmio Pulitzer

Embora críptica e vaga, a frase Butler ressoa em mim. Exatamente como vemos nos sonhos – cujas imagens vêm carregadas de significados, de emoções veladas, de véus que torcem sua real aparência, sempre retratados em linguagem cifrada – a escrita que vem do inconsciente é diferente das outras. Ela vem carregada, encharcada de emoções e imagens, impregnadas de simbolismo que à primeira vista não parecem ter significado claro. É uma escrita que esconde mais do que revela; que usa camadas e por isso torna a experiência rica.

Aos catorze esse tipo de escrita estava dando os primeiros passos, mas hoje ela é adulta, como eu. Nós duas acumulamos vivências, e estávamos prontas para deixar sair algo profundo e revelador. Mas eu a troquei pela escrita com metas. A escrita que supostamente deveria vender. Ainda dá tempo de consertar o erro.

A escrita do inconsciente é a escrita que decidi reconquistar. É essa danada que eu persigo aqui, e troco com vocês algumas de minhas ideias.

Não entendam mal meu propósito: pode ser que um dia eu viva da escrita. Mas esse não deve ser o principal objetivo dos meus esforços se quero escrever com profundidade e autenticidade. Escrever intuitivamente seguindo os sussurros de nosso interior é traduzir sonhos: é passar no texto imagens e emoções que despertam em quem lê aquela sensação de que há mais ali do que mostram as palavras. É render-se ao papel, rasgar o passado e ignorar o futuro para estar no presente. É abrir os canais para os sentidos e deixar o mundo agir em mim. O fim dessa escrita é me conectar ao outro, não agradar meu ego (isso é consequência.)

Decidi então firmar um compromisso, mais que isso, estar em um relacionamento com esse dom. Esse relacionamento é muito mais importante do que qualquer publicação ou validação externa. É recebê-la todos os dias com curiosidade, para que possa descobrir quem sou, o que quero ser, e onde meus caminhos internos me levam.

Você pode estudar técnicas, ansiar pela Terra do Holofote, ser um às do Marketing – você pode ser tudo. Você pode questionar essa escrita interior durante a edição, e ela é sábia para aceitar seu esforço em melhorá-la. Mas no fim do dia ela continua sendo a jóia mais rara entre todas as joias, o trunfo dos grandes e verdadeiros artistas. É com ela que você firmou o relacionamento. Sua intimidade com ela criará proximidade, e ela não faltará mais quando você chamá-la para o papel.

“A beleza de um relacionamento profundo é que você pode orbitar em torno dele por anos, sempre aprendendo novas coisas um sobre o outro,” disse-me uma vez uma professora. “Mas ele sempre será um belo mistério.”

Trate sua escrita com o mesmo tipo de reverência.

Com amor,

Assinatura Karina

Já conferiu meu site sobre escrita terapêutica? –> ww.ocaminhointerior.com.brLogo-Opções-3-1024x546

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